Archive for July, 2010

2012 – Time for Change

No post anterior, dissemos como a Anadarco, agência de comunicação descobriu a obra de Daniel Pinchbeck2012: the return of Quetzalcoátl. Mencionamos também que o cineasta brasileiro João Amorim estará em breve lançando um documentário baseando-se na mesma obra.

Este video é uma síntese bastante interessante sobre o livro de Pinchbeck. A mistura de animação e depoimentos ajudam a enriquecer ainda mais o tema. Nele, vemos a participação de Gilberto Gil, a atriz indicada ao Oscar Elen Page, o cultuado diretor de cinema, David Lynch, o próprio Daniel Pinchbeck, entre outras personalidades.

Vamos acompanhar de perto as datas de lançamento deste vídeo aqui no Brasil para você que acompanha o blog, conhecer um pouco mais desta obra de Daniel Pinchbeck e criar ainda mais curiosidades para ler 2012: the return of Quetzalcoátl.

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Como a Anadarco descobriu a obra de Daniel Pinchbek?

Em 2006, um de nossos colaboradores foi convidado a fazer resenhas de livros recém-lançados para uma revista inglesa.  Por isso, chegou em nossas mãos um exemplar da edição do livro de Daniel Pinchbeck,  2012: The year of the mayan prophecy (2012: the return of Quetzalcoátl, na edição americana).

O que nos fascinou no livro desse autor americano foi, primeiramente, sua capacidade  de desenvolver, com bastante rigor, mas sem o ranso acadêmico, uma pesquisa minuciosa sobre temas quase intangíveis: transformação na consciência, estados alterados da percepção, sustentabilidade e mudança de paradigmas na aventura humana. A principal tese defendida pelo autor é a de que o estado aparentemente caótico no qual se encontram as sociedades contemporâneas esconde um processo subliminar de intensa transformação. Para ele, a  consciência humana está rapidamente transitando para uma nova condição, uma nova intensidade de percepção que se manifestará numa transformação de nossa concepção de tempo/espaço, culminando na mudança da percepção de nós mesmos, nossa própria individualidade. Segundo essa ideia, a transição se tornará cada vez mais evidente na medida em que nos aproximarmos do ano de 2012, ano que representa, no calendário maia, a conclusão de uma era histórica e o início de outra.

Ao longo dos últimos anos, o livro acabou passando por diversas leituras, estimulando um interessante debate entre a equipe Anadarco. Foi somente em 2009, no entanto, que decidimos contatar o próprio autor sobre a possibilidade de publicar 2012 em português. Depois de negociações e ajustes, o trabalho está sendo finalmente traduzido e tem previsão para lançamento ao final deste ano.

Para nossa surpresa,  um outro brasileiro, o cineasta João Amorim, envolveu-se no projeto de Pinchbeck por outra vertente: fazendo um documentário baseado no livro. Trabalho rico em animações e entrevistas, o documentário  também tem previsão de lançamento no  Brasil num futuro próximo.

Animados com o projeto, nós da Anadarco resolvemos criar um blog para trazer temas relacionados à proposta do livro. Começamos há dois meses ensaiando textos que podem  abrir vias de discussão. Na medida em que a publicação começa a se concretizar,  o próprio debate aqui dentro  gera mais assunto, mais posts. O que principalmente nos motiva por trás dessa empreitada é a chance de oferecer ao público brasileiro um trabalho rico, consistente e inovador como o de Daniel Pinchbeck. Ele traz as questões de uma nova era não somente por meio de quebra de tabus e de modelos consagrados, mas colocando, no indivíduo, grande responsabilidade sobre a transformação global.


Dois livros sobre nossa maneira de ver a Terra

Gaia: alerta final, novo livro de James Lovelock (Editora Intrínseca, 262 pgs.), não é apenas outro  livro sobre aquecimento global.  É, ao mesmo tempo,  culminação de uma vida dedicada à ciência da Terra e advertência para os problemas ambientais do século XXI, salientando que civilizações de muitos países estão ameaçadas diante desse cenário.

Em seu livro anterior,  A Vingança de Gaia (publicado pela mesma editora em 2006),  o cientista britânico, então com 86 anos,  faz um apelo com o intuito de despertar a humanidade para o tema das mudanças climáticas.  Lovelock fala como um médico tratando de uma Terra febril. Vê o declínio da saúde da Terra como a mais importante preocupação de nossos tempos,  porque o bem-estar das massas crescentes de seres humanos exige um planeta sadio.

As duas obras argumentam  que  a Teoria de Gaia, concebida pelo autor há mais de 40 anos, pode ajudar a entender plenamente a crise ambiental pela qual passamos. Ambas também destacam que  o planeta abriga mais pessoas e animais do que poderia suportar. Nossa “insistência” (ou negligência)  em mantermos a situação como está  pode representar nosso próprio fim.

A tese fundamental de Lovelock é bastante simples: traduz a ideia de que a biosfera se comporta como um organismoo único. A espécie humana, por sua vez,  levou o planeta a um estresse sem precedentes, contribuindo com alterações no clima e gerando um ecossistema muito empobrecido, quase inóspito à sua própria sobrevivência. Nesse contexto, a necessidade de adaptação, segundo o autor, é fundamental – o que contempla estratégias como geoengenharia para lidar com as mudanças climáticas, medidas para reduzir a população e novas formas para a produção de alimentos. Se durante  milênios a humanidade vem explorando a Terra sem ligar para o custo, Jameslock argumenta que, embora o aquecimento global seja agora inevitável, não é tarde demais para salvar pelo menos parte da civilização humana.

A linguagem científica de forma alguma prejudica a leitura dos livros. Pelo contrário: em diversos trechos nota-se uma boa dose de abordagem poética, o que nos aproxima de uma relação com a natureza negligenciada pela civilização moderna. Para o leitor fica também a noção de que não é preciso ser um grande gênio para notar como as formas de ocupação do espaço, desde o excesso de asfalto e falta de vegetação nativa no entorno das grandes cidades pode causar alterações microclimáticas – afetando desde a umidade do ar à disponibilidade de água. Para a maior parte da população mundial, essas alterações parecem ainda ser invisíveis, ou ainda não afetam drasticamente seus modos de vida.

Lovelock certamente vai ficar na história, segundo o jornal inglês The Independent,  como o cientista que mudou nossa maneira de ver a Terra. Se essa mudança nos levará a uma  corajosa restruturação de nossas civilizações, não se sabe. Para Lovelock, nos comportamos mais como fumantes inveterados:  continuamos curtindo nossos cigarros, pensando em parar de fumar somente quando o dano se tornar visível.


Como criar uma cultura para sustentabilidade?

A mudança de valores é certamente um dos temas mais difíceis de se tratar quando o assunto é degradação da natureza ou  sustentabilidade.

Se inovações tecnológicas levam um tempo para serem implementadas e,  consequentemente, incorporadas aos hábitos da sociedade, uma alteração radical no que as pessoas valorizam e como enxergam o mundo é ainda mais complexa, demorada e sutil.

No decorrer da história,  grandes mudanças acontecem quando “a água chega ao pescoço”.  As pessoas e as sociedades só mudam diante da necessidade extrema.  Muitas vezes passa a ser impressionante a velocidade e habilidade com que a espécie humana  se adapta para fazer algo acontecer. Em outras, assistimos com frustração como podemos ser lentos e insistir nos mesmos erros por séculos e séculos.

O norte-americano  Lester Brown (fundador do World Watch Institute e autor do livro Plano B 4.0 – Mobilização para salvar a civilização)  lembra que, no início da década de 1940,  as indústrias  norte-americanas, principalmente as automobilísticas, adequaram toda sua produção para a fabricação de tanques e equipamentos bélicos. Em questão de meses,  um país reestruturou sua economia industrial. Um conjunto de fatores alinhavados por uma eficiente propaganda governamental gerou uma impressionante mobilização de empresas  e indivíduos a favor de um ideal. Esse fenômeno  faz a atual “patinação” em torno da implementação de tecnologias mais limpas parecer uma piada.  Hoje em dia, no entanto,  não há dúvida que o problema é mais complexo, pois estamos falando da necessidade de uma ação decisiva – uma alteração de economia e de comportamento – em escala global.

É evidente que uma cultura para a sustentabilidade não se cria do dia pra noite. E também é bastante claro que as ferramentas políticas são decisivas nesse processo. Mas uma cultura para a sustentabilidade deve, fundamentalmente, envolver o indivíduo. Valeria repensar o papel do indivíduo na sociedade (ou a sociedade de indivíduos, como propôs há muito tempo o sociólogo alemão Norbert Elias).  “[…] as unidades de potencia menor – dão origem a uma unidade de potencia maior, que não pode ser compreendida quando suas partes são consideradas em isolamento, independentemente de suas relações” (ELIAS, 1994, p. 16).

Nem a sociedade, nem o indivíduo existem sem o outro. Sem indivíduo não tem sociedade, sem sociedade não tem indivíduo. Para Elias, apesar da vida dos seres humanos em comunidade não ser harmoniosa, cria-se, de forma subjacente, uma organização praticamente imperceptível. “Essa ordem invisível é uma rede de funções interdependentes pela qual as pessoas estão ligadas entre si tendo peso e leis próprias” (ELIAS, 1994).

Uma cultura para a sustentabilidade requer uma profunda uma reavaliação das relações entre  indivíduo e sociedade, dos incentivos e formas de organização. Pergunta-se se ainda há tempo para nos organizarmos de tal forma que nos permita  ir de onde estamos para onde queremos chegar.


Um convite à reflexão

Daniel Pinchbeck, autor do livro 2012: the return of Quetzalcoatl (com tradução em português do Brasil para este final de ano) traz não apenas uma leitura temática, como faz um convite à reflexão.

Pinchbeck propõe 2012 como o ano da virada, mas virada de quê? Utilizando a sustentabilidade do planeta como fio narrativo, ele tenta encontrar novas formas de percepção da consciência em oposição ao atual modo de vida e de consumo que hoje praticamos.

A análise é feita de forma abrangente e parte de experiências com alucinógenos de tribos indígenas até fundamentos filosóficos de Nietzsche e Terrence McKenna. O mérito maior de Pinchbeck é aliar coisas tão distintas de forma clara e interessante.

O resultado disso tudo é uma obra instigante, curiosa e força um debate interno do leitor sobre atos consciente e inconscientemente praticados sobre o outro e sobre o meio ambiente. Em resumo: uma leitura obrigatória para os inquietos.