Como criar uma cultura para sustentabilidade?

A mudança de valores é certamente um dos temas mais difíceis de se tratar quando o assunto é degradação da natureza ou  sustentabilidade.

Se inovações tecnológicas levam um tempo para serem implementadas e,  consequentemente, incorporadas aos hábitos da sociedade, uma alteração radical no que as pessoas valorizam e como enxergam o mundo é ainda mais complexa, demorada e sutil.

No decorrer da história,  grandes mudanças acontecem quando “a água chega ao pescoço”.  As pessoas e as sociedades só mudam diante da necessidade extrema.  Muitas vezes passa a ser impressionante a velocidade e habilidade com que a espécie humana  se adapta para fazer algo acontecer. Em outras, assistimos com frustração como podemos ser lentos e insistir nos mesmos erros por séculos e séculos.

O norte-americano  Lester Brown (fundador do World Watch Institute e autor do livro Plano B 4.0 – Mobilização para salvar a civilização)  lembra que, no início da década de 1940,  as indústrias  norte-americanas, principalmente as automobilísticas, adequaram toda sua produção para a fabricação de tanques e equipamentos bélicos. Em questão de meses,  um país reestruturou sua economia industrial. Um conjunto de fatores alinhavados por uma eficiente propaganda governamental gerou uma impressionante mobilização de empresas  e indivíduos a favor de um ideal. Esse fenômeno  faz a atual “patinação” em torno da implementação de tecnologias mais limpas parecer uma piada.  Hoje em dia, no entanto,  não há dúvida que o problema é mais complexo, pois estamos falando da necessidade de uma ação decisiva – uma alteração de economia e de comportamento – em escala global.

É evidente que uma cultura para a sustentabilidade não se cria do dia pra noite. E também é bastante claro que as ferramentas políticas são decisivas nesse processo. Mas uma cultura para a sustentabilidade deve, fundamentalmente, envolver o indivíduo. Valeria repensar o papel do indivíduo na sociedade (ou a sociedade de indivíduos, como propôs há muito tempo o sociólogo alemão Norbert Elias).  “[…] as unidades de potencia menor – dão origem a uma unidade de potencia maior, que não pode ser compreendida quando suas partes são consideradas em isolamento, independentemente de suas relações” (ELIAS, 1994, p. 16).

Nem a sociedade, nem o indivíduo existem sem o outro. Sem indivíduo não tem sociedade, sem sociedade não tem indivíduo. Para Elias, apesar da vida dos seres humanos em comunidade não ser harmoniosa, cria-se, de forma subjacente, uma organização praticamente imperceptível. “Essa ordem invisível é uma rede de funções interdependentes pela qual as pessoas estão ligadas entre si tendo peso e leis próprias” (ELIAS, 1994).

Uma cultura para a sustentabilidade requer uma profunda uma reavaliação das relações entre  indivíduo e sociedade, dos incentivos e formas de organização. Pergunta-se se ainda há tempo para nos organizarmos de tal forma que nos permita  ir de onde estamos para onde queremos chegar.

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