Dois livros sobre nossa maneira de ver a Terra

Gaia: alerta final, novo livro de James Lovelock (Editora Intrínseca, 262 pgs.), não é apenas outro  livro sobre aquecimento global.  É, ao mesmo tempo,  culminação de uma vida dedicada à ciência da Terra e advertência para os problemas ambientais do século XXI, salientando que civilizações de muitos países estão ameaçadas diante desse cenário.

Em seu livro anterior,  A Vingança de Gaia (publicado pela mesma editora em 2006),  o cientista britânico, então com 86 anos,  faz um apelo com o intuito de despertar a humanidade para o tema das mudanças climáticas.  Lovelock fala como um médico tratando de uma Terra febril. Vê o declínio da saúde da Terra como a mais importante preocupação de nossos tempos,  porque o bem-estar das massas crescentes de seres humanos exige um planeta sadio.

As duas obras argumentam  que  a Teoria de Gaia, concebida pelo autor há mais de 40 anos, pode ajudar a entender plenamente a crise ambiental pela qual passamos. Ambas também destacam que  o planeta abriga mais pessoas e animais do que poderia suportar. Nossa “insistência” (ou negligência)  em mantermos a situação como está  pode representar nosso próprio fim.

A tese fundamental de Lovelock é bastante simples: traduz a ideia de que a biosfera se comporta como um organismoo único. A espécie humana, por sua vez,  levou o planeta a um estresse sem precedentes, contribuindo com alterações no clima e gerando um ecossistema muito empobrecido, quase inóspito à sua própria sobrevivência. Nesse contexto, a necessidade de adaptação, segundo o autor, é fundamental – o que contempla estratégias como geoengenharia para lidar com as mudanças climáticas, medidas para reduzir a população e novas formas para a produção de alimentos. Se durante  milênios a humanidade vem explorando a Terra sem ligar para o custo, Jameslock argumenta que, embora o aquecimento global seja agora inevitável, não é tarde demais para salvar pelo menos parte da civilização humana.

A linguagem científica de forma alguma prejudica a leitura dos livros. Pelo contrário: em diversos trechos nota-se uma boa dose de abordagem poética, o que nos aproxima de uma relação com a natureza negligenciada pela civilização moderna. Para o leitor fica também a noção de que não é preciso ser um grande gênio para notar como as formas de ocupação do espaço, desde o excesso de asfalto e falta de vegetação nativa no entorno das grandes cidades pode causar alterações microclimáticas – afetando desde a umidade do ar à disponibilidade de água. Para a maior parte da população mundial, essas alterações parecem ainda ser invisíveis, ou ainda não afetam drasticamente seus modos de vida.

Lovelock certamente vai ficar na história, segundo o jornal inglês The Independent,  como o cientista que mudou nossa maneira de ver a Terra. Se essa mudança nos levará a uma  corajosa restruturação de nossas civilizações, não se sabe. Para Lovelock, nos comportamos mais como fumantes inveterados:  continuamos curtindo nossos cigarros, pensando em parar de fumar somente quando o dano se tornar visível.

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