Archive for October, 2010

Design sustentável


Para quem é interessado no papel que  o design pode desempenhar a favor da sustentabilidade e  puder ir assistir ao documentário 2012: tempos de mudança que estará em cartaz dias 29 e 30 no Unibanco Arteplex e dia 31 no Cinema Sabesp, aqui vai uma dica: notem como o filme apresenta diversos exemplos que geram novos significados na relação homem – ambiente a partir de  estratégias de design ecoeficientes.

Especial atenção pode ser dada às criações de Buckminster Fuller, um visionário norte-americano que projetou e construiu inúmeros projetos  que visavam principalmente  a eficiência e o baixo custo de habitações e transporte. Detalhe: seus projetos surgiram  em meados do século XX, quando pouco se falava em “crise ambiental”.   Fuller  é mais conhecido pelas cúpulas geodésicas  e suas criações têm na natureza a grande inspiração, principalmente no que se refere a fontes renováveis de energia .

Mesmo após a morte de Fuller nos anos 1980, seu trabalho continua ativo por meio do Instituto Buckminster Fuller (www.bfi.org ). Os programas do Instituto incentivam a convergência entre tendências globais e necessidades locais, criando uma abordagem compreensiva do design, algo que tem influenciado diversas gerações de profissionais. Todas as organizações humanas “precisam” de uma tensão “natural” que se forma entre aquilo que é desenhado, projetado, programado e aquilo que emerge enquanto flexibilidade e adaptação às mudanças.  O grande desafio está em encontrar o equilíbrio adequado  entre o florescimento da criatividade e a estabilidade do design.

Podendo captar a atenção de designers, arquitetos, cientistas e artistas que buscam criar um planeta mais sustentável,  2012: tempos de mudança está repleto de exemplos  que repensam as estratégias do design: de habitações a motocicletas, de formas de agricultura urbana a espaços de convivência nas cidades.  O ponto em comum entre esses exemplos  é que eles não  se configuram como estruturas rígidas e acabadas, mas podem dar vazão a estruturas emergentes (esse é mais um termo da ciência da complexidade).  Em outras palavras, deixam a vida se manifestar.

Como o design é criado para atender a determinada função e é assim carregado de  significado, sua faceta sustentável surge quando forma e função permitem também a inovação, a criatividade e a flexibilidade. Quando possibilitam a mudança e a evolução.

No próximo final de semana da Mostra Internacional de Cinema há em 2012: Tempos de Mudança, um convite para se observar a convergência entre arte, ciência, design e tecnologia numa concepção transformadora baseada no pensamento sistêmico, nos princípios fundamentais da natureza e numa visão de mundo impulsionada pela ética.

Anote os dias de exibição do filme 2012: Tempos de Mudança na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

2012 Tempo de Mudança (2012: Time to Change)
de João Amorim (85′). EUA, BRasil, México, Suiça, França. Falado em inglês, espanhol, maya, q ‘anjob’ al. Legenda em português. Indicado para: 16 anos
Unibanco Arteplex 1 – 29/10/2010 – 21:40 Sessão 706 (sexta)
Unibanco Arteplex 5 – 30/10/2010 – 22:10 Sessão 842 (sábado)
Cinema Sabesp – 31/10/2010 – 14:00 Sessãon 956 (domingo)

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México Sagrado


Todos os anos, a psicoterapeuta Sandra Sofiati organiza uma viagem  especial com pessoas interessadas em conhecer com maior imersão a cultura e a tradição dos povos mexicanos. O blog 2012 – o ano que está promovendo o lançamento do livro 2012: O Ano da Profecia Maia, do autor norte-americano Daniel Pinchbeck, entrevistou Sandra para conhecer um pouco mais sobre seu trabalho. Acompanhe:

Anadarco Poderia contar como se deu a aproximação com a cultura mexicana e os povos indígenas da América Central?
Sandra Sofiati – Na verdade minha conexão com o mundo indígena só aconteceu no México. Em 1983, conheci uma terapeuta mexicana aqui em SP, Blanca Rosa Anorve, psicoterapeuta reichiana/corporal, e muito me impactou sua pessoa e seu trabalho. Deu vontade de morar no México para ser sua discípula e paciente. A isso juntou-se a leitura de Carlos Castaneda e a curiosidade de saber como era esse mundo da “realidade a parte” que Don Juan, um velho sábio índio mexicano, descrevia em seus livros.

Anadarco O que o povo e a cultura do México possuem de especial?
Sandra Sofiati – México é um lugar mágico, se você tiver abertura para perceber o mundo dentro de um referencial que não passa pela mente racional, possivelmente pelas 53 pirâmides espalhadas por todo seu território (grandes antenas cósmicas), ou por seu passado majestoso e ao mesmo tempo misterioso. Além disso, a cultura do México Antigo encontra-se preservada em muitos “pueblos” ainda. Culinária, medicina, agronomia, astronomia e um incomensurável corpo de conhecimento sobre as leis da natureza, tanto terrestre quanto cósmica, encontra-se intacto. Além disso é um lugar cheio de cores, sabores, música, bom humor e muito mistério. O povo é amistoso e amoroso na maioria das vezes, principalmente se você conquista sua confiança. Além disso, são muito lindos!

AnadarcoQual é a proposta da viagem que você promove todos os anos para o México?
Sandra Sofiati – A proposta é cultural e terapêutica ao mesmo tempo. Tenho interesse em difundir a cultura do México Antigo, suas bases filosóficas e espirituais. Dentro da nossa sociedade materialista pouco lembramos que o Espírito existe. No México, quando você entra em contato com o mundo indígena, percebe que o espírito humano não morreu e sua sabedoria ali esta resguardada; os valores espirituais estão vivos. O propósito desta viagem é mostrar isso às pessoas e proporcionar a elas a oportunidade de vivenciar os trabalhos de cura que são próprios desta tradição. É uma experiência de vida que tem de fato o poder da autotransformação.

Em Tepoztlan, “pueblo”  onde a cultura indígena se mantém viva e onde a religação cósmica se dá de forma imediata, seja por sua magia natural ou porque se preserva até hoje como centro cerimonial, ficamos hospedados.

AnadarcoQuem são as pessoas que você apresenta aos visitantes?
Sandra Sofiati – Sempre agradeço por poder contar com pessoas maravilhosas. A equipe que me assessora é formada por terapeutas, artistas, antropólogos e curadores tradicionais indígenas,que são os guardiães desta tradição.

AnadarcoJá teve experiências xamânicas? Poderia nos contar mais a respeito?
Sandra Sofiati – Já usei as plantas de poder em um determinado momento do caminho, sempre em contextos religiosos  ou acompanhada por um xamã. Foram muito importantes porque me proporcionaram a experiência direta com o mundo espiritual e com a possibilidade de acessar níveis de consciência muito além da consciência racional. Convivi em tempos de moradia no México, com guardiães da tradição espiritual e filosófica do México Antigo e com eles participei de cerimônias e trabalhos de cura. Essa relação com as plantas, sejam medicinais ou de poder, faz parte do dia a dia deles. Todos curam com as mãos e seu conhecimento do poder curativo das plantas é fantástico.

Anadarco – Quais são os maiores aprendizados de Carlos Castañeda? (o autor Daniel Pinchbeck menciona Carlos Castañeda em diversas passagens)
Sandra Sofiati – Bem, ele precisou se desprender da visão mecanicista da vida e admitir que podem existir outras realidades além desta realidade ordinária em que vivemos. Finalmente aprendeu a transitar por esses diferentes níveis de realidade e acabou se convertendo em guerreiro. O que é ser um guerreiro na tradição tolteca? “Fortalecendo o corpo e purificando o espírito, o guerreiro busca a impecabilidade de si mesmo. Seus inimigos são vícios, debilidades, irresponsabilidades e a falta da consciência”.


Por uma ciência da sustentabilidade

Por Karin Thrall

Um dos interessantes resultados que tem aflorado com a exibição do documentário 2012: Tempos de Mudança em salas de cinema de espaços culturais em São Paulo é a percepção do quanto cresce a atenção e o interesse do público com relação a temas voltados para a sustentabilidade. Enquanto se discute a possibilidade de se adotar práticas e hábitos que sejam menos prejudiciais à natureza e à própria vida na Terra, é preciso ressaltar que se contribui também para o desenvolvimento de um pensamento sustentável. Essa é uma questão latente ao filme de Amorim e ao livro de Pinchbeck: a mudança de paradigma que combina as dimensões biológica, cognitiva e social da vida.  O filme de Amorim chega a “cutucar” porque apresenta propostas de sustentabilidade não de forma normativa, ditando o que se pode e o que não pode fazer, mas sim pondo o problema de forma mais abrangente, superando a divisão cartesiana entre mente e matéria.

Essas ideias ressoam o que parte da ciência tem buscado como entendimento de sustentabilidade, ou melhor, como proposta de uma ciência da sustentabilidade, já que a transformação de pensamento pela qual estamos passando não irá conduzir somente a uma mudança política ou uma alteração na organização social. Irá certamente alterar  o entendimento da ideia de vida.

A ciência propõe um novo entendimento sobre a vida

A mudança paradigmática pela qual estamos passando não vem de agora, não surgiu “do nada”. A trajetória do físico Fritjof Capra descreve bem essa evolução do pensamento. Desde os anos 1970, a pesquisa de Capra tem focado em três linhas principais: – num estudo sobre a mudança na visão de mundo que está acontecendo na ciência e na sociedade; – no consequente desdobramento dessa nova visão da realidade; –  e nas implicações sociais dessa transformação cultural.

Em seu primeiro livro, O Tao da Física (1975),  Capra discutiu as consequências filosóficas que estão por trás da mudança de conceitos e ideias na física durante as três primeiras décadas do século XX.

O segundo livro, O Ponto de Mutação (1982) mostrou como essa revolução na física moderna anunciou uma revolução similar em muitas outras ciências – na biologia, na medicina, na psicologia e na economia. Essa mudança levou, primeiramente, a uma transformação correspondente na visão de mundo e nos valores da sociedade. Em segundo lugar, a transformação ressaltou o fato de que essas áreas do conhecimento estão interconectadas porque, de uma forma ou de outra, lidam com a vida – com sistemas vivos,  biológicos ou sociais.  A mudança de paradigma que começou a ser moldada a partir dessa revolução no pensamento científico começou a chegar perto de uma  visão da realidade na qual a vida (em seu sentido amplo) está  no centro.

No início dos anos 1980, essa nova visão ainda não estava bem articulada. Capra chamava essa formulação científica de “visão sistêmica da vida”, referindo-se à tradição intelectual do pensamento sistêmico. Essa ideia, que eventualmente substituiria a visão de mundo mecanicista cartesiana em diferentes disciplinas, foi apresentada em detalhes em A Teia da Vida,  livro de Capra de 1996.

A visão sistêmica da vida é uma nova forma de se pensar a vida


A visão sistêmica da vida é uma nova forma de se pensar a vida, introduzindo novas percepções, novos conceitos e uma nova linguagem. No final do século XX, essa visão foi colocada na linha de frente do desenvolvimento do pensamento científico foi conduzida por pesquisadores de diferentes áreas que criaram um clima intelectual muito propício para esses avanços.

O grande passo foi dado quando esses cientistas formularam teorias e técnicas para descrever e analisar a complexidade dos sistemas vivos. E isso não foi tarefa fácil, porque várias características dos sistemas vivos envolvem fenômenos que os cientistas chamam de “não-lineares”.

Até muito recentemente, recomendava-se evitar as equações não-lineares, porque elas eram quase impossiveis de serem resolvidas. Nos anos 1970, entretanto, os cientistas tiveram acesso, pela primeira vez, a computadores velozes que ajudaram a resolver essas equações. Ao fazerem isso, eles desenvolveram um grande número de novos conceitos e técnicas que gradualmente convergiram em direção a uma estrutura matemática coerente para resolver essas equações não lineares, o que aumentou de forma significativa nossa compreensão sobre muitas características chave da vida.  Isso tem sido frequentemente chamado de “teoria da complexidade” ou “ciência da complexidade” na escrita popular. Cientistas e matemáticos preferem chamar de “dinâmica não-linear”.

A ciência da complexidade se aproxima de uma ciência da sustentabilidade


Essa proposta de entendimento científicos sobre a vida representa um grande divisor de águas na história da ciência. Pela primeira vez, os cientistas têm uma linguagem efetiva para descrever e analisar sistemas complexos como é o caso dos sistemas vivos. Conceitos como atratores, fractais e diagramas de bifurcação não existiam antes do desenvolvimento da dinâmica não-linear. Hoje, esses conceitos permitem que façamos novas perguntas e que conduzam a  importantes insights em muitas áreas.

Um desses insigths importantes é a possibilidade de se conectar a vida com a dimensão social, abordando-se “coisas da natureza” e as “coisas da sociedade” de maneiras  complementares. Isso é um grande avanço e uma abordagem muito rara porque, tradicionalmente, cientistas sociais não se interessam muito pelo mundo da matéria. Nossas disciplinas acadêmicas foram organizadas de tal forma que as ciências naturais lidam com as estruturas materiais, enquanto que as ciências sociais lidam com as estruturas sociais, que são entendidas, essencialmente, como regras de comportamento. A grande novidade é que no futuro, essa divisão rígida não mais será possível, porque o desafio chave deste novo século será construir comunidades ecológicas sustentáveis, criadas de tal forma que  suas tecnologias e instituições – suas estruturas materiais e sociais – não interfiram com a habilidade inerente da natureza em conservar a vida.  Uma estrutura conceitual unificada para entender as estruturais material e social será essencial para esta tarefa e é por isso que uma ciência da complexidade pode ajudar muito na construção de uma ciência da sustentabilidade.

Chegar próximo a uma ciência da sustentabilidade é um dos principais objetivos do livro publicado em 2002,  Conexões Ocultas. Nele, Capra  se propõe a extender o novo entendimento sobre a vida a partir da teoria da complexidade. Para isso, ele apresenta uma estrutura conceitual que integra as dimensões biológica, cognitiva e social da vida. O objetivo é não somente oferecer um visão unificada da vida, da mente e da sociedade, mas também desenvolver uma abordagem sistêmica coerente para algumas das questões críticas de nosso tempo.

Nesse sentido, o que antes poderia parecer impossível de se estudar e compreender de maneira coerente, hoje parece ser mais viável. Do ponto de vista da cultura, obras como as de Amorim e Pinchbeck surgem como importantes desdobramentos e contribuições para a transformação de visão de mundo tão necessária e urgente. Tanto o filme, quanto o livro mostram que os princípios de nossas instituições sociais futuras precisam ser coerentes com os princípios de organização que a natureza desenvolveu para manter a vida. Aliados aos avanços no campo científico, os impactos que obras como essas geram no público nos fazem acreditar na possibilidade de chegar mais perto de uma ciência da sustentabilidade.