Por uma ciência da sustentabilidade

Por Karin Thrall

Um dos interessantes resultados que tem aflorado com a exibição do documentário 2012: Tempos de Mudança em salas de cinema de espaços culturais em São Paulo é a percepção do quanto cresce a atenção e o interesse do público com relação a temas voltados para a sustentabilidade. Enquanto se discute a possibilidade de se adotar práticas e hábitos que sejam menos prejudiciais à natureza e à própria vida na Terra, é preciso ressaltar que se contribui também para o desenvolvimento de um pensamento sustentável. Essa é uma questão latente ao filme de Amorim e ao livro de Pinchbeck: a mudança de paradigma que combina as dimensões biológica, cognitiva e social da vida.  O filme de Amorim chega a “cutucar” porque apresenta propostas de sustentabilidade não de forma normativa, ditando o que se pode e o que não pode fazer, mas sim pondo o problema de forma mais abrangente, superando a divisão cartesiana entre mente e matéria.

Essas ideias ressoam o que parte da ciência tem buscado como entendimento de sustentabilidade, ou melhor, como proposta de uma ciência da sustentabilidade, já que a transformação de pensamento pela qual estamos passando não irá conduzir somente a uma mudança política ou uma alteração na organização social. Irá certamente alterar  o entendimento da ideia de vida.

A ciência propõe um novo entendimento sobre a vida

A mudança paradigmática pela qual estamos passando não vem de agora, não surgiu “do nada”. A trajetória do físico Fritjof Capra descreve bem essa evolução do pensamento. Desde os anos 1970, a pesquisa de Capra tem focado em três linhas principais: – num estudo sobre a mudança na visão de mundo que está acontecendo na ciência e na sociedade; – no consequente desdobramento dessa nova visão da realidade; –  e nas implicações sociais dessa transformação cultural.

Em seu primeiro livro, O Tao da Física (1975),  Capra discutiu as consequências filosóficas que estão por trás da mudança de conceitos e ideias na física durante as três primeiras décadas do século XX.

O segundo livro, O Ponto de Mutação (1982) mostrou como essa revolução na física moderna anunciou uma revolução similar em muitas outras ciências – na biologia, na medicina, na psicologia e na economia. Essa mudança levou, primeiramente, a uma transformação correspondente na visão de mundo e nos valores da sociedade. Em segundo lugar, a transformação ressaltou o fato de que essas áreas do conhecimento estão interconectadas porque, de uma forma ou de outra, lidam com a vida – com sistemas vivos,  biológicos ou sociais.  A mudança de paradigma que começou a ser moldada a partir dessa revolução no pensamento científico começou a chegar perto de uma  visão da realidade na qual a vida (em seu sentido amplo) está  no centro.

No início dos anos 1980, essa nova visão ainda não estava bem articulada. Capra chamava essa formulação científica de “visão sistêmica da vida”, referindo-se à tradição intelectual do pensamento sistêmico. Essa ideia, que eventualmente substituiria a visão de mundo mecanicista cartesiana em diferentes disciplinas, foi apresentada em detalhes em A Teia da Vida,  livro de Capra de 1996.

A visão sistêmica da vida é uma nova forma de se pensar a vida


A visão sistêmica da vida é uma nova forma de se pensar a vida, introduzindo novas percepções, novos conceitos e uma nova linguagem. No final do século XX, essa visão foi colocada na linha de frente do desenvolvimento do pensamento científico foi conduzida por pesquisadores de diferentes áreas que criaram um clima intelectual muito propício para esses avanços.

O grande passo foi dado quando esses cientistas formularam teorias e técnicas para descrever e analisar a complexidade dos sistemas vivos. E isso não foi tarefa fácil, porque várias características dos sistemas vivos envolvem fenômenos que os cientistas chamam de “não-lineares”.

Até muito recentemente, recomendava-se evitar as equações não-lineares, porque elas eram quase impossiveis de serem resolvidas. Nos anos 1970, entretanto, os cientistas tiveram acesso, pela primeira vez, a computadores velozes que ajudaram a resolver essas equações. Ao fazerem isso, eles desenvolveram um grande número de novos conceitos e técnicas que gradualmente convergiram em direção a uma estrutura matemática coerente para resolver essas equações não lineares, o que aumentou de forma significativa nossa compreensão sobre muitas características chave da vida.  Isso tem sido frequentemente chamado de “teoria da complexidade” ou “ciência da complexidade” na escrita popular. Cientistas e matemáticos preferem chamar de “dinâmica não-linear”.

A ciência da complexidade se aproxima de uma ciência da sustentabilidade


Essa proposta de entendimento científicos sobre a vida representa um grande divisor de águas na história da ciência. Pela primeira vez, os cientistas têm uma linguagem efetiva para descrever e analisar sistemas complexos como é o caso dos sistemas vivos. Conceitos como atratores, fractais e diagramas de bifurcação não existiam antes do desenvolvimento da dinâmica não-linear. Hoje, esses conceitos permitem que façamos novas perguntas e que conduzam a  importantes insights em muitas áreas.

Um desses insigths importantes é a possibilidade de se conectar a vida com a dimensão social, abordando-se “coisas da natureza” e as “coisas da sociedade” de maneiras  complementares. Isso é um grande avanço e uma abordagem muito rara porque, tradicionalmente, cientistas sociais não se interessam muito pelo mundo da matéria. Nossas disciplinas acadêmicas foram organizadas de tal forma que as ciências naturais lidam com as estruturas materiais, enquanto que as ciências sociais lidam com as estruturas sociais, que são entendidas, essencialmente, como regras de comportamento. A grande novidade é que no futuro, essa divisão rígida não mais será possível, porque o desafio chave deste novo século será construir comunidades ecológicas sustentáveis, criadas de tal forma que  suas tecnologias e instituições – suas estruturas materiais e sociais – não interfiram com a habilidade inerente da natureza em conservar a vida.  Uma estrutura conceitual unificada para entender as estruturais material e social será essencial para esta tarefa e é por isso que uma ciência da complexidade pode ajudar muito na construção de uma ciência da sustentabilidade.

Chegar próximo a uma ciência da sustentabilidade é um dos principais objetivos do livro publicado em 2002,  Conexões Ocultas. Nele, Capra  se propõe a extender o novo entendimento sobre a vida a partir da teoria da complexidade. Para isso, ele apresenta uma estrutura conceitual que integra as dimensões biológica, cognitiva e social da vida. O objetivo é não somente oferecer um visão unificada da vida, da mente e da sociedade, mas também desenvolver uma abordagem sistêmica coerente para algumas das questões críticas de nosso tempo.

Nesse sentido, o que antes poderia parecer impossível de se estudar e compreender de maneira coerente, hoje parece ser mais viável. Do ponto de vista da cultura, obras como as de Amorim e Pinchbeck surgem como importantes desdobramentos e contribuições para a transformação de visão de mundo tão necessária e urgente. Tanto o filme, quanto o livro mostram que os princípios de nossas instituições sociais futuras precisam ser coerentes com os princípios de organização que a natureza desenvolveu para manter a vida. Aliados aos avanços no campo científico, os impactos que obras como essas geram no público nos fazem acreditar na possibilidade de chegar mais perto de uma ciência da sustentabilidade.

2 responses

  1. Oi parabens pelo blog tão completo na teoria da sustentabilidade, visite o meu blog de design e meio ambiente, obrigado.

    October 14, 2010 at 2:38 am

  2. Fernanda

    Estou ha tempos pra te falar que adorei o blog, saudade, Fer

    November 14, 2010 at 12:25 am

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