A sustentabilidade como ponte entre o espírito e a natureza

Por que será que quando nos aprofundamos em questões sobre sustentabilidade, inevitavelmente chegamos ao tema da espiritualidade? Talvez porque o horizonte almejado seja a construção de uma relação mais harmônica com a natureza, algo quase paradisíaco, um pote de ouro ao final do arco-íris. Idílico? Nem tanto. Uma proposta como essa deixa de ser utópica se prestarmos atenção no que a própria natureza tem a dizer; se buscarmos trilhar um caminho que amplie nosso espectro de observação – de nós mesmos e do mundo ao nosso redor.

Dois exemplos podem ser facilmente citados. O jornalista André Trigueiro publicou no ano passado o livro Espiritismo e Ecologia, identificando os muitos pontos em comum que existem entre essas duas formas de conhecimento. O príncipe Charles, da Inglaterra, publicou um livro com o título Harmony: a new way of looking at our world, sugerindo que nossos problemas modernos mais urgentes têm suas raízes em uma profunda desconexão com a natureza.

Mas onde exatamente entra a questão do espírito humano e dessa busca interior, sem necessariamente cairmos na armadilha da ênfase exagerada de muitas abordagens religiosas?

Uma bela forma de se pensar na questão é lembrar da origem da palavra “espírito”. No latim, spiritus significa “sopro” ou “respiração”. O significado também está relacionado à palavra anima (também do latim), psyche (grego) e atman (sânscrito). Esses termos indicam que o significado original de espírito, em muitas tradições filosóficas e religiosas antigas tanto no Oriente, quanto no Ocidente, está relacionado ao sopro ou à respiração da vida.

Como a respiração certamente é o ponto central do metabolismo de qualquer ser vivo, a noção de “sopro da vida” pode ser uma interessante metáfora para representar os processos metabólicos de um ser. Espírito, dessa forma, é o que temos em comum com outros seres vivos. É o que nos mantém vivos, como sugere o físico Fritjof Capra.

A espiritualidade ou a vida espiritual pode ser então entendida como uma profunda experiência com a realidade.  Uma experiência espiritual pode ser considerada um momento de elevada sensação de se estar vivo, aqueles momentos em que sentimos que estamos vivendo mais intensamente, algo que envolve mente e corpo, totalidade e comunhão.

A meditação, a concentração, ou até mesmo ouvir uma música agradável, dançar ou um contato direto e contemplativo com a natureza podem nos proporcionar momentos de profunda sensação de unidade, de pertencimento ao universo. E essa sensação de totalidade e integração não pode ser descartada quando sem fala em sustentabilidade.  Será impossível chegarmos a uma forma de relação mais harmônica com a natureza em nossas cidades, em nossas instituições e nossas economias se não tivermos uma sensação de pertencimento ao mundo, expandindo nossas fronteiras do “aqui e agora” rumo a uma simultaneidade com outros tempos e outras dimensões.

Essa sensação de pertencimento só pode intensificar nossa relação com nós mesmos e com o próximo, nossa responsabilidade com o entorno em que vivemos e com as futuras gerações. Talvez possamos dizer que a sustentabilidade passa, necessariamente, pelas vias da percepção, pelos canais mais atentos a nossas conexões entre “o dentro e o fora” de nosso corpo. Precisamos, necessariamente, desdobrar nosso olhar na direção do invisível.

Quem ler o livro 2012: o ano da profecia maia vai perceber que Daniel Pinchbeck, para chegar a esse tipo de conexão, vivenciou ritos de culturas primitivas, viajou pelo mundo e procurou entender o efeito de psicodélicos na mente humana. Mergulhou naquilo que nossa cultura tradicional considera obscuro e esotérico. Mas os resultados de sua jornada espiritual estão longe de serem “viagens na maionese”: Pinchbeck publicou dois livros, é produtor executivo em um documentário sobre sustentabilidade e editor chefe da revista digital Reality Sandwich e do movimento Evolver, promovendo ações com foco no desenvolvimento de um sistema de valores baseados na transformação da cultura e na conexão humana.

O caminho espiritual de Pinchbeck foi trilhado prestando atenção no que os ciclos da natureza e do universo têm a dizer. Quebrou barreiras entre a rígida divisão entre natureza e cultura e começou a trabalhar a favor de um mundo mais solidário e melhor.  Certamente, esse não é a única estrada a ser percorrida em direção a uma relação mais harmônica com a natureza. Qual será a sua?

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